Mês do Nutricionista: na era das “canetas emagrecedoras”, a Nutrição se torna ainda mais importante

Profissional de saúde sorrindo em consulta com paciente

Agosto é um mês especial para a Nutrição. No dia 31 de agosto, celebramos o Dia do Nutricionista, uma oportunidade para reconhecer uma profissão que vai muito além da elaboração de dietas: o nutricionista participa da prevenção, do tratamento de doenças e da construção de estratégias capazes de melhorar a saúde e a qualidade de vida.

E, em 2026, falar sobre Nutrição também significa discutir uma das maiores transformações recentes no tratamento da obesidade: o avanço dos medicamentos popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”.

Medicamentos que atuam nas vias do GLP-1 — e, em alguns casos, em mais de uma via hormonal — mudaram significativamente a forma como encaramos o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.

Mas uma pergunta se tornou cada vez mais frequente:

Se existem medicamentos capazes de promover uma perda de peso expressiva, qual é o papel da Nutrição nesse processo?

A resposta é simples: a Nutrição não perdeu espaço. Ela se tornou ainda mais necessária.

Obesidade não é apenas uma questão de “comer menos”

Durante muitos anos, o tratamento da obesidade foi excessivamente simplificado pela ideia de que bastava reduzir calorias e aumentar a atividade física.

Hoje sabemos que a obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, influenciada por fatores genéticos, metabólicos, hormonais, comportamentais, ambientais e sociais.

O desenvolvimento de medicamentos como os agonistas do receptor de GLP-1 e outras terapias incretínicas trouxe novas possibilidades justamente porque atua em mecanismos biológicos envolvidos na regulação do apetite, saciedade, ingestão alimentar e metabolismo.

Isso representa um avanço importante.

Entretanto, perder peso não é sinônimo automático de melhorar a qualidade da alimentação, preservar massa muscular ou construir saúde metabólica.

É justamente nesse ponto que a atuação nutricional ganha ainda mais relevância.

A caneta pode reduzir a fome. Mas não ensina a comer.

Durante o tratamento farmacológico, muitas pessoas apresentam redução importante do apetite e passam a consumir volumes significativamente menores de alimentos.

Isso pode favorecer a perda de peso, mas também exige atenção.

Se a alimentação não for adequadamente planejada, a redução da ingestão pode dificultar o consumo suficiente de proteínas, fibras, vitaminas, minerais e outros nutrientes essenciais.

Além disso, sintomas gastrointestinais como náuseas, constipação, sensação de plenitude e alterações no hábito intestinal podem ocorrer durante o tratamento e interferir ainda mais na alimentação.

O acompanhamento nutricional permite adaptar quantidade, composição, consistência e distribuição das refeições às necessidades individuais e à fase do tratamento.

Emagrecer preservando músculos também importa

Um dos pontos que merece atenção durante processos de perda de peso é a composição corporal.

Quando uma pessoa emagrece, o objetivo não deveria ser simplesmente observar um número menor na balança. É importante avaliar o que está sendo perdido.

A preservação da massa muscular é especialmente relevante para manutenção da força, funcionalidade, gasto energético e saúde metabólica.

Por isso, estratégias como ingestão proteica individualizada, alimentação nutricionalmente adequada e prática de exercício — especialmente exercícios resistidos, quando indicados — fazem parte de uma abordagem mais completa.

O melhor tratamento não é aquele que apenas reduz quilos. É aquele que melhora saúde e composição corporal.

E o que acontece quando a medicação é retirada?

Outra questão importante é a manutenção dos resultados.

A obesidade é uma doença crônica e pode exigir tratamento de longo prazo. A interrupção da terapia farmacológica pode estar associada à recuperação de parte do peso perdido em muitos pacientes.

Por isso, não faz sentido utilizar o período de menor apetite apenas para “comer o mínimo possível”.

Esse período também deve ser utilizado para construir uma relação alimentar mais estruturada, identificar gatilhos, melhorar a qualidade da dieta e desenvolver estratégias sustentáveis para diferentes fases da vida.

A medicação pode ser uma ferramenta do tratamento. A mudança do estilo de vida continua sendo parte da construção da saúde.

Caneta e Nutrição não são concorrentes

Talvez esse seja um dos principais conceitos que precisamos reforçar.

Não precisamos escolher entre medicamento ou alimentação.

O tratamento contemporâneo da obesidade é cada vez mais interdisciplinar e pode envolver, de acordo com cada paciente, acompanhamento médico, nutricional, psicológico, atividade física e tratamento farmacológico.

Quando existe indicação clínica, medicamentos podem ser excelentes ferramentas.

O problema começa quando a “caneta” é transformada em solução isolada, utilizada sem avaliação adequada ou quando a redução do peso passa a ser o único marcador de sucesso.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Quantos quilos você perdeu?”

E passa a incluir:

Como está sua massa muscular? Sua ingestão de proteínas? Seu intestino? Seus exames? Sua relação com a comida? Sua saúde metabólica? E, principalmente, como vamos sustentar esses resultados?

Neste mês do Nutricionista, uma reflexão

A chegada das novas terapias para obesidade não diminui a importância do nutricionista.

Ela reforça a necessidade de uma Nutrição cada vez mais clínica, científica, individualizada e integrada às demais áreas da saúde.

Não se trata de ser contra ou a favor das “canetas”.

Trata-se de compreender quando são indicadas, para quem são indicadas e como integrar o tratamento farmacológico a uma estratégia capaz de cuidar do paciente como um todo.

Porque medicamentos podem modificar importantes mecanismos envolvidos no apetite e no metabolismo.

Mas saúde não cabe apenas na balança — e muito menos dentro de uma caneta.

Neste mês do Nutricionista, celebramos os profissionais que transformam ciência em cuidado e ajudam cada paciente a construir uma alimentação possível, adequada e sustentável em todas as fases do tratamento.

INCCOR® — Instituto de Nutrição do Cérebro e Coração
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Conteúdo educativo. Não substitui avaliação individualizada. Medicamentos para obesidade e diabetes possuem indicações, contraindicações e possíveis efeitos adversos e devem ser utilizados com acompanhamento de profissionais habilitados.

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